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domingo, 21 de dezembro de 2014

AQUECIMENTO GLOBAL: 6 BI MORRERÃO


Aquecimento global é inevitável e 6 bi morrerão, diz cientista
James Lovelock, renomado cientista, diz que o aquecimento global é irreversível - e que mais de 6 bilhões de pessoas vão morrer neste século

  • Cortesia de James Lovelock
por Por Jeff Goodell
Aos 88 anos, depois de quatro filhos e uma carreira longa e respeitada como um dos cientistas mais influentes do século 20, James Lovelock chegou a uma conclusão desconcertante: a raça humana está condenada. "Gostaria de ser mais esperançoso", ele me diz em uma manhã ensolarada enquanto caminhamos em um parque em Oslo (Noruega), onde o estudioso fará uma palestra em uma universidade. Lovelock é baixinho, invariavelmente educado, com cabelo branco e óculos redondos que lhe dão ares de coruja. Seus passos são gingados; sua mente, vívida; seus modos, tudo menos pessimistas. Aliás, a chegada dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse - guerra, fome, pestilência e morte - parece deixá-lo animado. "Será uma época sombria", reconhece. "Mas, para quem sobreviver, desconfio que vá ser bem emocionante."
Na visão de Lovelock, até 2020, secas e outros extremos climáticos serão lugar-comum. Até 2040, o Saara vai invadir a Europa, e Berlim será tão quente quanto Bagdá. Atlanta acabará se transformando em uma selva de trepadeiras kudzu. Phoenix se tornará um lugar inabitável, assim como partes de Beijing (deserto), Miami (elevação do nível do mar) e Londres (enchentes). A falta de alimentos fará com que milhões de pessoas se dirijam para o norte, elevando as tensões políticas. "Os chineses não terão para onde ir além da Sibéria", sentencia Lovelock. "O que os russos vão achar disso? Sinto que uma guerra entre a Rússia e a China seja inevitável." Com as dificuldades de sobrevivência e as migrações em massa, virão as epidemias. Até 2100, a população da Terra encolherá dos atuais 6,6 bilhões de habitantes para cerca de 500 milhões, sendo que a maior parte dos sobreviventes habitará altas latitudes - Canadá, Islândia, Escandinávia, Bacia Ártica.
Até o final do século, segundo o cientista, o aquecimento global fará com que zonas de temperatura como a América do Norte e a Europa se aqueçam quase 8 graus Celsius - quase o dobro das previsões mais prováveis do relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, a organização sancionada pela ONU que inclui os principais cientistas do mundo. "Nosso futuro", Lovelock escreveu, "é como o dos passageiros em um barquinho de passeio navegando tranqüilamente sobre as cataratas do Niagara, sem saber que os motores em breve sofrerão pane". E trocar as lâmpadas de casa por aquelas que economizam energia não vai nos salvar. Para Lovelock, diminuir a poluição dos gases responsáveis pelo efeito estufa não vai fazer muita diferença a esta altura, e boa parte do que é considerado desenvolvimento sustentável não passa de um truque para tirar proveito do desastre. "Verde", ele me diz, só meio de piada, "é a cor do mofo e da corrupção."
Se tais previsões saíssem da boca de qualquer outra pessoa, daria para rir delas como se fossem devaneios. Mas não é tão fácil assim descartar as idéias de Lovelock. Na posição de inventor, ele criou um aparelho que ajudou a detectar o buraco crescente na camada de ozônio e que deu início ao movimento ambientalista da década de 1970. E, na posição de cientista, apresentou a teoria revolucionária conhecida como Gaia - a idéia de que nosso planeta é um superorganismo que, de certa maneira, está "vivo". Essa visão hoje serve como base a praticamente toda a ciência climática. Lynn Margulis, bióloga pioneira na Universidade de Massachusetts (Estados Unidos), diz que ele é "uma das mentes científicas mais inovadoras e rebeldes da atualidade". Richard Branson, empresário britânico, afirma que Lovelock o inspirou a gastar bilhões de dólares para lutar contra o aquecimento global. "Jim é um cientista brilhante que já esteve certo a respeito de muitas coisas no passado", diz Branson. E completa: "Se ele se sente pessimista a respeito do futuro, é importante para a humanidade prestar atenção."
Lovelock sabe que prever o fim da civilização não é uma ciência exata. "Posso estar errado a respeito de tudo isso", ele admite. "O problema é que todos os cientistas bem intencionados que argumentam que não estamos sujeitos a nenhum perigo iminente baseiam suas previsões em modelos de computador. Eu me baseio no que realmente está acontecendo."
Quando você se aproxima da casa de Lovelock em Devon, uma área rural no sudoeste da Inglaterra, a placa no portão de metal diz, claramente: "Estação Experimental de Coombe Mill. Local de um novo hábitat. Por favor, não entre nem incomode".
Depois de percorrer algumas centenas de metros em uma alameda estreita, ao lado de um moinho antigo, fica uma casinha branca com telhado de ardósia onde Lovelock mora com a segunda mulher, Sandy, uma norte-americana, e seu filho mais novo, John, de 51 anos e que tem incapacidade leve. É um cenário digno de conto de fadas, cercado de 14 hectares de bosques, sem hortas nem jardins com planejamento paisagístico. Parcialmente escondida no bosque fica uma estátua em tamanho natural de Gaia, a deusa grega da Terra, em homenagem à qual James Lovelock batizou sua teoria inovadora.
A maior parte dos cientistas trabalha às margens do conhecimento humano, adicionando, aos poucos, nova informações para a nossa compreensão do mundo. Lovelock é um dos poucos cujas idéias fomentaram, além da revolução científica, também a espiritual. "Os futuros historiadores da ciência considerarão Lovelock como o homem que inspirou uma mudança digna de Copérnico na maneira como nos enxergamos no mundo", prevê Tim Lenton, pesquisador de clima na Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Antes de Lovelock aparecer, a Terra era considerada pouco mais do que um pedaço de pedra aconchegante que dava voltas em torno do Sol. De acordo com a sabedoria em voga, a vida evoluiu aqui porque as condições eram adequadas: não muito quente nem muito frio, muita água. De algum modo, as bactérias se transformaram em organismos multicelulares, os peixes saíram do mar e, pouco tempo depois, surgiu Britney Spears.
Na década de 1970, Lovelock virou essa idéia de cabeça para baixo com uma simples pergunta: Por que a Terra é diferente de Marte e de Vênus, onde a atmosfera é tóxica para a vida? Em um arroubo de inspiração, ele compreendeu que nossa atmosfera não foi criada por eventos geológicos aleatórios, mas sim devido à efusão de tudo que já respirou, cresceu e apodreceu. Nosso ar "não é meramente um produto biológico", James Lovelock escreveu. "É mais provável que seja uma construção biológica: uma extensão de um sistema vivo feito para manter um ambiente específico." De acordo com a teoria de Gaia, a vida é participante ativa que ajuda a criar exatamente as condições que a sustentam. É uma bela idéia: a vida que sustenta a vida. Também estava bem em sintonia com o tom pós-hippie dos anos 70. Lovelock foi rapidamente adotado como guru espiritual, o homem que matou Deus e colocou o planeta no centro da experiência religiosa da Nova Era. O maior erro de sua carreira, aliás, não foi afirmar que o céu estava caindo, mas deixar de perceber que estava. Em 1973, depois de ser o primeiro a descobrir que os clorofluocarbonetos (CFCs), um produto químico industrial, tinham poluído a atmosfera, Lovelock declarou que a acumulação de CFCs "não apresentava perigo concebível". De fato, os CFCs não eram tóxicos para a respiração, mas estavam abrindo um buraco na camada de ozônio. Lovelock rapidamente revisou sua opinião, chamando aquilo de "uma das minhas maiores bolas fora", mas o erro pode ter lhe custado um prêmio Nobel.
No início, ele também não considerou o aquecimento global como uma ameaça urgente ao planeta. "Gaia é uma vagabunda durona", ele explica com freqüência, tomando emprestada uma frase cunhada por um colega. Mas, há alguns anos, preocupado com o derretimento acelerado do gelo no Ártico e com outras mudanças relacionadas ao clima, ele se convenceu de que o sistema de piloto automático de Gaia está seriamente desregulado, tirado dos trilhos pela poluição e pelo desmatamento. Lovelock acredita que o planeta vai recuperar seu equilíbrio sozinho, mesmo que demore milhões de anos. Mas o que realmente está em risco é a civilização. "É bem possível considerar seriamente as mudanças climáticas como uma resposta do sistema que tem como objetivo se livrar de uma espécie irritante: nós, os seres humanos", Lovelock me diz no pequeno escritório que montou em sua casa. "Ou pelo menos fazer com que diminua de tamanho."
Se você digitar "gaia" e "religion" no Google, vai obter 2,36 milhões de páginas - praticantes de wicca, viajantes espirituais, massagistas e curandeiros sexuais, todos inspirados pela visão de Lovelock a respeito do planeta. Mas se você perguntar a ele sobre cultos pagãos, ele responde com uma careta: não tem interesse na espiritualidade desmiolada nem na religião organizada, principalmente quando coloca a existência humana acima de tudo o mais. Em Oxford, certa vez ele se levantou e repreendeu Madre Teresa por pedir à platéia que cuidasse dos pobres e "deixasse que Deus tomasse conta da Terra". Como Lovelock explicou a ela, "se nós, as pessoas, não respeitarmos a Terra e não tomarmos conta dela, podemos ter certeza de que ela, no papel de Gaia, vai tomar conta de nós e, se necessário for, vai nos eliminar".
Gaia oferece uma visão cheia de esperança a respeito de como o mundo funciona. Afinal de contas, se a Terra é mais do que uma simples pedra que gira ao redor do sol, se é um superorganismo que pode evoluir, isso significa que existe certa quantidade de perdão embutida em nosso mundo - e essa é uma conclusão que vai irritar profundamente estudiosos de biologia e neodarwinistas de absolutamente todas as origens.
Para Lovelock, essa é uma idéia reconfortante. Considere a pequena propriedade que ele tem em Devon. Quando ele comprou o terreno, há 30 anos, era rodeada por campos aparados por mil anos de ovelhas pastando. E ele se empenhou em devolver a seus 14 hectares um caráter mais próximo do natural. Depois de consultar um engenheiro florestal, plantou 20 mil árvores - amieiros, carvalhos, pinheiros. Infelizmente, plantou muitas delas próximas demais, e em fileiras. Agora, as árvores estão com cerca de 12 metros de altura, mas em vez de ter ar "natural", partes do terreno dele parecem simplesmente um projeto de reflorestamento mal executado. "Meti os pés pelas mãos", Lovelock diz com um sorriso enquanto caminhamos no bosque. "Mas, com o passar dos anos, Gaia vai dar um jeito."
Até pouco tempo atrás, Lovelock achava que o aquecimento global seria como sua floresta meia-boca - algo que o planeta seria capaz de corrigir. Então, em 2004, Richard Betts, amigo de Lovelock e pesquisador no Centro Hadley para as Mudanças Climáticas - o principal instituto climático da Inglaterra -, convidou-o para dar uma passada lá e bater um papo com os cientistas. Lovelock fez reunião atrás de reunião, ouvindo os dados mais recentes a respeito do gelo derretido nos pólos, das florestas tropicais cada vez menores, do ciclo de carbono nos oceanos. "Foi apavorante", conta.
"Mostraram para nós cinco cenas separadas de respostas positivas em climas regionais - polar, glacial, floresta boreal, floresta tropical e oceanos -, mas parecia que ninguém estava trabalhando nas conseqüências relativas ao planeta como um todo." Segundo ele, o tom usado pelos cientistas para falar das mudanças que testemunharam foi igualmente de arrepiar: "Parecia que estavam discutindo algum planeta distante ou um universo-modelo, em vez do lugar em que todos nós, a humanidade, vivemos".
Quando Lovelock estava voltando para casa em seu carro naquela noite, a compreensão lhe veio. A capacidade de adaptação do sistema se perdera. O perdão fora exaurido. "O sistema todo", concluiu, "está em modo de falha." Algumas semanas depois, ele começou a trabalhar em seu livro mais pessimista, A Vingança de Gaia, publicado no Brasil em 2006. Na sua visão, as falhas nos modelos climáticos computadorizados são dolorosamente aparentes. Tome como exemplo a incerteza relativa à projeção do nível do mar: o IPCC, o painel da ONU sobre mudanças climáticas, estima que o aquecimento global vá fazer com que a temperatura média da Terra aumente até 6,4 graus Celsius até 2100. Isso fará com que geleiras em terra firme derretam e que o mar se expanda, dando lugar à elevação máxima do nível de mar de apenas pouco menos de 60 centímetros. A Groenlândia, de acordo com os modelos do IPCC, demorará mil anos para derreter.
Mas evidências do mundo real sugerem que as estimativas do IPCC são conservadoras demais. Para começo de conversa, os cientistas sabem, devido aos registros geológicos, que há 3 milhões de anos, quando as temperaturas subiram cinco graus acima dos níveis atuais, os mares subiram não 60 centímetros, mas 24 metros. Além do mais, medidas feitas por satélite recentemente indicam que o Ártico está derretendo com tanta rapidez que a região pode ficar totalmente sem gelo até 2030. "Quem elabora os modelos não tem a menor noção sobre derretimento de placas de gelo", desdenha o estudioso, sem sorrir.
Mas não é apenas o gelo que invalida os modelos climáticos. Sabe-se que é difícil prever corretamente a física das nuvens, e fatores da biosfera, como o desmatamento e o derretimento da Tundra, raramente são levados em conta. "Os modelos de computador não são bolas de cristal", argumenta Ken Caldeira, que elabora modelos climáticos na Universidade de Stanford, cuja carreira foi profundamente influenciada pelas idéias de Lovelock. "Ao observar o passado, fazemos estimativas bem informadas em relação ao futuro. Os modelos de computador são apenas uma maneira de codificar esse conhecimento acumulado em apostas automatizadas e bem informadas."
Aqui, em sua essência supersimplificada, está o cenário pessimista de Lovelock: o aumento da temperatura significa que mais gelo derreterá nos pólos, e isso significa mais água e terra. Isso, por sua vez, faz aumentar o calor (o gelo reflete o sol, a terra e a água o absorvem), fazendo com que mais gelo derreta. O nível do mar sobe. Mais calor faz com que a intensidade das chuvas aumente em alguns lugares e com que as secas se intensifiquem em outros. As florestas tropicais amazônicas e as grandes florestas boreais do norte - o cinturão de pinheiros e píceas que cobre o Alasca, o Canadá e a Sibéria - passarão por um estirão de crescimento, depois murcharão até desaparecer. O solo permanentemente congelado das latitudes do norte derrete, liberando metano, um gás que contribui para o efeito estufa e que é 20 vezes mais potente do que o CO2... e assim por diante. Em um mundo de Gaia funcional, essas respostas positivas seriam moduladas por respostas negativas, sendo que a maior de todas é a capacidade da Terra de irradiar calor para o espaço. Mas, a certa altura, o sistema de regulagem pára de funcionar e o clima dá um salto - como já aconteceu muitas vezes no passado - para uma nova situação, mais quente. Não é o fim do mundo, mas certamente é o fim do mundo como o conhecemos.
O cenário pessimista de Lovelock é desprezado por pesquisadores de clima de renome, sendo que a maior parte deles rejeita a idéia de que haja um único ponto de desequilíbrio para o planeta inteiro. "Ecossistemas individuais podem falhar ou as placas de gelo podem entrar em colapso", esclarece Caldeira, "mas o sistema mais amplo parece ser surpreendentemente adaptável." No entanto, vamos partir do princípio, por enquanto, de que Lovelock esteja certo e que de fato estejamos navegando por cima das cataratas do Niagara. Simplesmente vamos acenar antes de cair? Na visão de Lovelock, reduções modestas de emissões de gases que contribuem para o efeito estufa não vão nos ajudar - já é tarde demais para deter o aquecimento global trocando jipões a diesel por carrinhos híbridos. E a idéia de capturar a poluição de dióxido de carbono criada pelas usinas a carvão e bombear para o subsolo? "Não há como enterrar quantidade suficiente para fazer diferença." Biocombustíveis? "Uma idéia monumentalmente idiota." Renováveis? "Bacana, mas não vão nem fazer cócegas." Para Lovelock, a idéia toda do desenvolvimento sustentável é equivocada: "Deveríamos estar pensando em retirada sustentável".
A retirada, na visão dele, significa que está na hora de começar a discutir a mudança do lugar onde vivemos e de onde tiramos nossos alimentos; a fazer planos para a migração de milhões de pessoas de regiões de baixa altitude, como Bangladesh, para a Europa; a admitir que Nova Orleans já era e mudar as pessoas para cidades mais bem posicionadas para o futuro. E o mais importante de tudo é que absolutamente todo mundo "deve fazer o máximo que pode para sustentar a civilização, de modo que ela não degenere para a Idade das Trevas, com senhores guerreiros mandando em tudo, o que é um perigo real. Assim, podemos vir a perder tudo".
Até os amigos de Lovelock se retraem quando ele fala assim. "Acho que ele está deixando nossa cota de desespero no negativo", diz Chris Rapley, chefe do Museu de Ciência de Londres, que se empenhou com afinco para despertar a consciência mundial sobre o aquecimento global. Outros têm a preocupação justificada de que as opiniões de Lovelock sirvam para dispersar o momento de concentração de vontade política para impor restrições pesadas às emissões de gases poluentes que contribuem para o efeito estufa. Broecker, o paleoclimatologista de Columbia, classifica a crença de Lovelock de que reduzir a poluição é inútil como "uma bobagem perigosa".
"Eu gostaria de poder dizer que turbinas de vento e painéis solares vão nos salvar", Lovelock responde. "Mas não posso. Não existe nenhum tipo de solução possível. Hoje, há quase 7 bilhões de pessoas no planeta, isso sem falar nos animais. Se pegarmos apenas o CO2 de tudo que respira, já é 25% do total - quatro vezes mais CO2 do que todas as companhias aéreas do mundo. Então, se você quer diminuir suas emissões, é só parar de respirar. É apavorante. Simplesmente ultrapassamos todos os limites razoáveis em números. E, do ponto de vista puramente biológico, qualquer espécie que faz isso tem que entrar em colapso."
Mas isso não é sugerir, no entanto, que Lovelock acredita que deveríamos ficar tocando harpa enquanto assistimos o mundo queimar. É bem o contrário. "Precisamos tomar ações ousadas", ele insiste. "Temos uma quantidade enorme de coisas a fazer." De acordo com a visão dele, temos duas escolhas: podemos retornar a um estilo de vida mais primitivo e viver em equilíbrio com o planeta como caçadores-coletores ou podemos nos isolar em uma civilização muito sofisticada, de altíssima tecnologia. "Não há dúvida sobre que caminho eu preferiria", diz certa manhã, em sua casa, com um sorriso aberto no rosto enquanto digita em seu computador. "Realmente, é uma questão de como organizamos a sociedade - onde vamos conseguir nossa comida, nossa água. Como vamos gerar energia."
Em relação à água, a resposta é bem direta: usinas de dessalinização, que são capazes de transformar água do mar em água potável. O suprimento de alimentos é mais difícil: o calor e a seca vão acabar com a maior parte das regiões de plantações de alimentos hoje existentes. Também vão empurrar as pessoas para o norte, onde vão se aglomerar em cidades. Nessas áreas, não haverá lugar para quintais ajardinados. Como resultado, Lovelock acredita, precisaremos sintetizar comida - teremos que criar alimentos em barris com culturas de tecidos de carnes e vegetais. Isso parece muito exagerado e profundamente desagradável, mas, do ponto de vista tecnológico, não será difícil de realizar.
O fornecimento contínuo de eletricidade também será vital, segundo ele. Cinco dias depois de visitar o centro Hadley, Lovelock escreveu um artigo opinativo polêmico, intitulado: "Energia nuclear é a única solução verde". Lovelock argumentava que "devemos usar o pequeno resultado dos renováveis com sensatez", mas que "não temos tempo para fazer experimentos com essas fontes de energia visionárias; a civilização está em perigo iminente e precisa usar a energia nuclear - a fonte de energia mais segura disponível - agora ou sofrer a dor que em breve será infligida a nosso planeta tão ressentido".
Ambientalistas urraram em protesto, mas qualquer pessoa que conhecia o passado de Lovelock não se surpreendeu com sua defesa à energia nuclear. Aos 14 anos, ao ler que a energia do sol vem de uma reação nuclear, ele passou a acreditar que a energia nuclear é uma das forças fundamentais no universo. Por que não aproveitá-la? No que diz respeito aos perigos - lixo radioativo, vulnerabilidade ao terrorismo, desastres como o de Chernobyl - Lovelock diz que este é dos males o menos pior: "Mesmo que eles tenham razão a respeito dos perigos, e não têm, continua não sendo nada na comparação com as mudanças climáticas".
Como último recurso, para manter o planeta pelo menos marginalmente habitável, Lovelock acredita que os seres humanos podem ser forçados a manipular o clima terrestre com a construção de protetores solares no espaço ou instalando equipamentos para enviar enormes quantidades de CO2 para fora da atmosfera. Mas ele considera a geoengenharia em larga escala como um ato de arrogância - "Imagino que seria mais fácil um bode se transformar em um bom jardineiro do que os seres humanos passarem a ser guardiões da Terra". Na verdade, foi Lovelock que inspirou seu amigo Richard Branson a oferecer um prêmio de US$ 25 milhões para o "Virgin Earth Challenge" (Desafio Virgin da Terra), que será concedido à primeira pessoa que conseguir criar um método comercialmente viável de remover os gases responsáveis pelo efeito estufa da atmosfera. Lovelock é juiz do concurso, por isso não pode participar dele, mas ficou intrigado com o desafio. Sua mais recente idéia: suspender centenas de milhares de canos verticais de 18 metros de comprimento nos oceanos tropicais, colocar uma válvula na base de cada cano e permitir que a água das profundezas, rica em nutrientes, seja bombeada para a superfície pela ação das ondas. Os nutrientes das águas das profundezas aumentariam a proliferação das algas, que consumiriam o dióxido de carbono e ajudariam a resfriar o planeta. "É uma maneira de contrabalançar o sistema de energia natural da Terra usando ele próprio", Lovelock especula. "Acho que Gaia aprovaria."
Oslo é o tipo perfeito de cidade para Lovelock. Fica em latitudes do norte, que ficarão mais temperadas na medida em que o clima for esquentando; tem água aos montes; graças a suas reservas de petróleo e gás, é rica; e lá já há muito pensamento criativo relativo à energia, incluindo, para a satisfação de Lovelock, discussões renovadas a respeito da energia nuclear. "A questão principal a ser discutida aqui é como manejar as hordas de pessoas que chegarão à cidade", Lovelock avisa. "Nas próximas décadas, metade da população do sul da Europa vai tentar se mudar para cá."
Nós nos dirigimos para perto da água, passando pelo castelo de Akershus, uma fortaleza imponente do século 13 que funcionou como quartel-general nazista durante a ocupação da cidade na Segunda Guerra Mundial. Para Lovelock, os paralelos entre o que o mundo enfrentou naquela época e o que enfrenta hoje são bem claros. "Em certos aspectos, é como se estivéssemos de novo em 1939", ele afirma. "A ameaça é óbvia, mas não conseguimos nos dar conta do que está em jogo. Ainda estamos falando de conciliação."
Naquele tempo, como hoje, o que mais choca Lovelock é a ausência de liderança política. Apesar de respeitar as iniciativas de Al Gore para conscientizar as pessoas, não acredita que nenhum político tenha chegado perto de nos preparar para o que vem por aí. "Em muito pouco tempo, estaremos vivendo em um mundo desesperador, comenta Lovelock. Ele acredita que está mais do que na hora para uma versão "aquecimento global" do famoso discurso que Winston Churchill fez para preparar a Grã-Bretanha para a Segunda Guerra Mundial: "Não tenho nada a oferecer além de sangue, trabalho, lágrimas e suor". "As pessoas estão prontas para isso", Lovelock dispara quando passamos sob a sombra do castelo. "A população entende o que está acontecendo muito melhor do que a maior parte dos políticos."
Independentemente do que o futuro trouxer, é provável que Lovelock não esteja por aí para ver. "O meu objetivo é viver uma vida retangular: longa, forte e firme, com uma queda rápida no final", sentencia. Lovelock não apresenta sinais de estar se aproximando de seu ponto de queda. Apesar de já ter passado por 40 operações, incluindo ponte de safena, continua viajando de um lado para o outro no interior inglês em seu Honda branco, como um piloto de Fórmula 1. Ele e Sandy recentemente passaram um mês de férias na Austrália, onde visitaram a Grande Barreira de Corais. O cientista está prestes a começar a escrever mais um livro sobre Gaia. Richard Branson o convidou para o primeiro vôo do ônibus espacial Virgin Galactic, que acontecerá no fim do ano que vem - "Quero oferecer a ele a visão de Gaia do espaço", diz Branson. Lovelock está ansioso para fazer o passeio, e planeja fazer um teste em uma centrífuga até o fim deste ano para ver se seu corpo suporta as forças gravitacionais de um vôo espacial. Ele evita falar de seu legado, mas brinca com os filhos dizendo que quer ver gravado na lápide de seu túmulo: "Ele nunca teve a intenção de ser conciliador".
Em relação aos horrores que nos aguardam, Lovelock pode muito bem estar errado. Não por ter interpretado a ciência erroneamente (apesar de isso certamente ser possível), mas por ter interpretado os seres humanos erroneamente. Poucos cientistas sérios duvidam que estejamos prestes a viver uma catástrofe climática. Mas, apesar de toda a sensibilidade de Lovelock para a dinâmica sutil e para os ciclos de resposta no sistema climático, ele se mostra curiosamente alheio à dinâmica sutil e aos ciclos de resposta no sistema humano. Ele acredita que, apesar dos nossos iPhones e dos nossos ônibus espaciais, continuamos sendo animais tribais, amplamente incapazes de agir pelo bem maior ou de tomar decisões de longo prazo que garantam nosso bem-estar. "Nosso progresso moral", diz Lovelock, "não acompanhou nosso progresso tecnológico."
Mas talvez seja exatamente esse o motivo do apocalipse que está por vir. Uma das questões que fascina Lovelock é a seguinte: A vida vem evoluindo na Terra há mais de 3 bilhões de anos - e por que motivo? "Gostemos ou não, somos o cérebro e o sistema nervoso de Gaia", ele explica. "Agora, assumimos responsabilidade pelo bem-estar do planeta. Como vamos lidar com isso?"
Enquanto abrimos caminho no meio dos turistas que se dirigem para o castelo, é fácil olhar para eles e ficar triste. Mais difícil é olhar para eles e ter esperança. Mas quando digo isso a Lovelock, ele argumenta que a raça humana passou por muitos gargalos antes - e que talvez sejamos melhores por causa disso. Então ele me conta a história de um acidente de avião, anos atrás, no aeroporto de Manchester. "Um tanque de combustível pegou fogo durante a decolagem", recorda. "Havia tempo de sobra para todo mundo sair, mas alguns passageiros simplesmente ficaram paralisados, sentados nas poltronas, como tinham lhes dito para fazer, e as pessoas que escaparam tiveram que passar por cima deles para sair. Era perfeitamente óbvio o que era necessário fazer para sair, mas eles não se mexiam. Morreram carbonizados ou asfixiados pela fumaça. E muita gente, fico triste em dizer, é assim. E é isso que vai acontecer desta vez, só que em escala muito maior."
Lovelock olha para mim com olhos azuis muito firmes. "Algumas pessoas vão ficar sentadas na poltrona sem fazer nada, paralisadas de pânico. Outras vão se mexer. Vão ver o que está prestes a acontecer, e vão tomar uma atitude, e vão sobreviver. São elas que vão levar a civilização em frente."
(Tradução de Ana Ban)
 


Issue 14 - November 2007

Global warming is inevitable and 6 billion will die, says scientist

James Lovelock, renowned scientist, says that global warming is irreversible - and that more than 6 billion people will die in this century

  • James Lovelock, always provocative, believes that the human race is in clear and present danger. James Lovelock, always provocative, believes that the human race is in clear and present danger.

  • Courtesy of James Lovelock

by By Jeff Goodell

At 88, after four children and a long and respected career as one of the most influential scientists of the 20th century, James Lovelock came to a disconcerting conclusion: the human race is doomed. "I would be more hopeful," he tells me on a sunny morning as we walk in a park in Oslo (Norway), where the student will give a lecture at a university. Lovelock is a small man, unfailingly polite, with white hair and round glasses that give you owl air. His steps are gingados; your mind, vivid; his manner anything but pessimistic. Moreover, the arrival of the Four Horsemen of the Apocalypse - war, famine, pestilence and death - seems to leave you excited. "It will be a dark time," acknowledges. "But for those who survive, I suspect that it will be exciting as well."

In the view of Lovelock, 2020, droughts and other extreme weather will be commonplace. By 2040, the Sahara will invade Europe, and Berlin will be as hot as Baghdad. Atlanta eventually turning into a jungle of vines kudzu. Phoenix will become uninhabitable, as well as parts of Beijing (desert), Miami (rising sea level) and London (floods). Food shortages will cause millions of people bound for the north, raising political tensions. "The Chinese do not have to go beyond Siberia," Lovelock sentences. "What the Russians will find that? I feel that a war between Russia and China is inevitable." With the difficulties of survival and mass migrations will come epidemics. By 2100, the Earth's population will shrink from the current 6.6 billion people to about 500 million, with most of the survivors dwell high latitudes - Canada, Iceland, Scandinavia, the Arctic Basin.

By the end of the century, according to the scientist, global warming will cause temperature zones such as North America and Europe to heat almost 8 degrees Celsius - nearly double the latest report most likely forecasts of the Intergovernmental Panel on Climate Change, the organization sanctioned by the UN which includes leading scientists in the world. "Our future," Lovelock wrote, "is like the passengers in a passenger boat sailing quietly on the Niagara Falls, not knowing that the engines soon suffer pane". And change the home lamps for those that save energy will not save us. To Lovelock, reduce pollution of the gases responsible for the greenhouse effect will not make much difference at this point, and much of what is sustainable development is nothing but a trick to take advantage of the disaster. "Green," he tells me, just kind of joke, "is the color of mold and corruption."

If such predictions from the mouth of any other person, give to laugh at them as if they were daydreaming. But it is not so easy to dispose of Lovelock's ideas. In inventor position, he created a device that helped detect the growing hole in the ozone layer and that started the environmental movement of the 1970s and, as a scientist position, introduced the revolutionary theory known as Gaia - the idea that our planet is a superorganism that, in a sense, is "alive". This view today serves as a basis to virtually all climate science. Lynn Margulis, a pioneering biologist at the University of Massachusetts (United States), says he is "one of the most innovative scientific minds and today's rebels." Richard Branson, British entrepreneur, says Lovelock inspired him to spend billions of dollars to fight global warming. "Jim is a brilliant scientist who has been right about many things in the past," says Branson. He adds, "If it feels pessimistic about the future, it is important for humanity to watch."

Lovelock knows that predicting the end of civilization is not an exact science. "I may be wrong about all this," he admits. "The problem is that all well-meaning scientists who argue that we are not subject to any imminent danger base their forecasts on computer models. I base on what is really happening."

When you approach Lovelock's house in Devon, a rural area in southwestern England, the sign on the metal gate says clearly: "Experimental Station of Coombe Mill Site of a new habitat Please do not enter or bother.." .
After traveling a few hundred meters in a narrow lane, next to an old mill, is a white house with slate roof where Lovelock lives with his second wife, Sandy, an American, and his youngest son, John, 51 years and has mild disability. It is a worthy of fairy-tale setting, surrounded by 14 acres of woods without gardens or landscaped gardens with planning. Partially hidden in the woods stands a life-size statue of Gaia, the Greek goddess of the earth, after which James Lovelock named his groundbreaking theory.

Most of the scientists working on the shores of human knowledge, adding gradually new information to our understanding of the world. Lovelock is one of the few whose ideas fostered in addition to the scientific revolution, also the spiritual. "Future historians of science consider Lovelock as the man who inspired a change worthy of Copernicus in the way we see ourselves in the world," predicts Tim Lenton, climate researcher at the University of East Anglia in England. Before Lovelock appears, the Earth was considered little more than a piece of warm stone that was spinning around the sun According to the wisdom in vogue, life evolved here because the conditions were adequate:. Neither too hot nor too cold , plenty of water. Somehow, the bacteria became multicellular organisms, fish out of the ocean and, shortly thereafter, came Britney Spears.

In the 1970s, Lovelock turned this idea upside down with a simple question: Why the Earth is different from Mars and Venus, where the atmosphere is toxic to life? In a burst of inspiration, he understood that our atmosphere was not created by random geological events, but due to effusion of everything that ever breathed, grown and rotted. Our air "is not merely a biological product," James Lovelock wrote. "It's more likely to be a biological construction: an extension of a living system designed to maintain a specific environment." According to the Gaia theory, life is an active participant in helping to create exactly the conditions that sustain it. It's a nice idea: a life that sustains life. He was also well in line with the post-hippie tone 70s Lovelock was quickly adopted as a spiritual guru, the man who killed God and put the planet at the center of the religious experience of the New Age. The biggest mistake of his career, in fact, was not state that the sky was falling, but fail to realize that was. In 1973, after being the first to discover that clorofluocarbonetos (CFCs), an industrial chemical, had polluted the atmosphere, Lovelock stated that the accumulation of CFCs "had no conceivable danger". In fact, CFCs were not toxic to breath, but were opening a hole in the ozone layer. Lovelock quickly revised his opinion, calling it "one of my biggest balls off", but the error may have cost him a Nobel Prize.

At first, he also did not consider global warming as an urgent threat to the planet. "Gaia is a tough bitch," he often said, borrowing a phrase coined by a colleague. But a few years ago, concerned about the accelerated melting of ice in the Arctic and other changes related to climate, he became convinced that the automatic pilot Gaia system is seriously deregulated, derailed by pollution and deforestation. Lovelock believes the planet will regain its balance alone, even if it takes millions of years. But what really is at risk is civilization. "It is quite possible to seriously consider climate change as a system response that aims to get rid of an irritating species: we, humans," Lovelock tells me in the small office set up in your home. "Or at least make decrease in size."

If you type "Gaia" and "religion" in Google, you will get 2.36 million pages - wicca practitioners, spiritual travelers, massage therapists and sexual healers, all inspired by Lovelock's vision of the planet. But if you ask him about pagan cults, he replies with a grin: no interest in spirituality scatterbrained or in organized religion, especially when put human life above all else. At Oxford, he once got up and rebuked Mother Teresa by asking the audience to care for the poor and "let God take care of the Earth." As Lovelock explained to her, "if we, the people, do not respect the Earth and we do not take care of her, we can be sure that she, in the role of Gaia, will take care of us and, if necessary, will eliminate us" .
Gaia offers a full vision of hope as to how the world works. After all, if the Earth is more than a simple stone that rotates around the sun, it is a superorganism that can evolve, it means that there is a certain amount of forgiveness built into our world - and this is a conclusion that will irritate deeply scholars of neo-Darwinian biology and absolutely all backgrounds.

To Lovelock, this is a comforting idea. Consider the small property he has in Devon. When he bought the land 30 years ago, it was surrounded by fields trimmed for a thousand years of grazing sheep. And he strove to return to its 14 hectares a closer natural character. After consulting a forester, planted 20,000 trees - alders, oaks, pines. Unfortunately, many of them planted too close, and in rows. Now, the trees are about 12 feet tall, but instead of having air "natural" parts of his land simply look like a poorly executed reforestation project. "I put his foot in it," Lovelock says with a smile as we walk in the woods. "But over the years, Gaia will work something out."

Until recently, Lovelock thought that global warming would be like a half-assed forest - something the planet would be able to fix. Then, in 2004, Richard Betts, a friend of Lovelock and researcher at the Hadley Centre for Climate Change - the main climate institute of England - invited him to stop by there and chat with scientists. Lovelock had meeting after meeting, listening to the latest data about melting ice at the poles, tropical forests smaller and smaller, the carbon cycle in the oceans. "It was terrifying," he says.

"They showed us five separate scenes of positive responses in regional climates - polar, glacial, boreal forest, tropical forest and oceans - but it seemed no one was working the consequences for the planet as a whole." According to him, the tone used by scientists to talk about the changes they witnessed was equally chilling: "They seemed to be discussing some distant planet or universe model, instead of the place where all of us, humanity, live."

When Lovelock was returning home in his car that night, understanding came to him. The system's ability to adapt was lost. Forgiveness was exhausted. "The whole system," he concluded, "is in failure mode." A few weeks later, he began work on his most pessimistic book, The Revenge of Gaia, published in Brazil in 2006. In his view, the flaws in computer climate models are painfully apparent. Take for example the uncertainty in projecting sea level: the IPCC, the UN panel on climate change estimates that global warming go cause the Earth's average temperature increase to 6.4 degrees Celsius by 2100. This will that glaciers on land to melt and the sea to expand, giving rise to the maximum elevation of the sea level of just under 60 cm. Greenland, according to the models of the IPCC, it will take a thousand years to melt.

But real-world evidence suggests that the IPCC estimates are too conservative. For one thing, scientists know, because of the geological record, that there are 3 million years ago, when temperatures rose five degrees above current levels, the seas rose not 60 centimeters, but 24 meters. Furthermore, measurements made ​​by satellite recently indicate that the Arctic is melting so quickly that the region could be ice-free by 2030. "Who prepares the models do not have the slightest idea about melting ice sheets", disdains the scholar without smiling.

But it's not just the ice that invalidates the climate models. It is known that it is difficult to correctly predict the physics of clouds, and factors of the biosphere, such as deforestation and melting tundra, are rarely taken into account. "Computer models are not crystal balls," argues Ken Caldeira, working climate models at Stanford University, whose career was deeply influenced by Lovelock's ideas. "Looking at the past, we informed estimates about the future. Computer models are just a way to encode this accumulated knowledge into automated and informed bets."

Here, in its oversimplified essence, is the pessimistic scenario of Lovelock: increasing temperature means more ice melt at the poles, and that means more water and land. This, in turn, increases the heat (ice reflects the sun, earth and water absorb), causing more ice to melt. The sea level rises. More heat causes the intensity of rainfall increases in some places and that droughts will intensify in others. The Amazon rainforest and the great boreal forests of the north - the belt of pine and spruce that covers Alaska, Canada and Siberia - undergo a spurt of growth, then wither and disappear. The permafrost in northern latitudes melts, releasing methane, a gas that contributes to the greenhouse effect and is 20 times more potent than CO2 ... and so on. In a world of Gaia functional, these positive responses would be modulated by negative responses, and the biggest one is the Earth's ability to radiate heat into space. But at some point, the regulation system stops working and the weather takes a leap - as has happened many times in the past - to a new situation, warmer. Not the end of the world, but it is certainly the end of the world as we know it.

The Lovelock pessimistic scenario is despised by leading climate researchers, most of them reject the idea that there is a single point of imbalance for the entire planet. "Individual ecosystems may fail or the ice sheets may collapse," says Caldeira, "but the larger system appears to be surprisingly adaptable." However, let's assume for the moment that Lovelock is right and that in fact we are looking over the Niagara Falls. Let's just wave before falling? In the view of Lovelock, modest reductions of greenhouse gas emissions that contribute to global warming will not help us - it's too late to stop global warming changing jipões diesel Hybrid cars. And the idea of capturing the carbon dioxide pollution created by coal plants and pumping the underground? "We can not bury enough to make a difference." Biofuels? "A monumentally stupid idea." Renewable? "Nifty, but will not even tickle." To Lovelock, the whole idea of sustainable development is mistaken: "We should be thinking about sustainable retreat."

The withdrawal, in his view, means that it's time to start discussing the change of the place where we live and where we get our food; to plan for the migration of millions of people from low-lying areas such as Bangladesh, for Europe; to admit that New Orleans was already changing and people to cities better positioned for the future. And most important of all is that absolutely everyone "should do as much as you can to sustain civilization, so that it does not degenerate to the Dark Ages, with warlords sending at all, which is a real danger. So , we could lose everything. "

Even friends of Lovelock withdraw when he talks like that. "I think he's leaving our despair quota in the negative," says Chris Rapley, head of the Science Museum in London, who strove hard to raise global awareness about global warming. Others have a justified concern that the views of Lovelock serve to disperse the moment of political will to concentration to impose heavy restrictions on greenhouse gas emissions that contribute to global warming. Broecker, paleoclimatologist Columbia, ranked Lovelock's belief that reducing pollution is useless as a "dangerous nonsense."

"I wish I could say that wind turbines and solar panels will save us," Lovelock says. ... "But I can not there is any possible solution Today, there are almost 7 billion people on the planet, not to mention the animals If we take only the CO2 every breath, is already 25% of the total - four times CO2 than all the airlines in the world. So if you want to decrease their emissions, just stop breathing. It's terrifying. Simply exceeded all reasonable limits in numbers. And, from a purely biological point of view, any species that is it has to collapse. "

But this is not to suggest, however, that Lovelock believes we should be playing the harp as we watch the world burn. It is quite the opposite. "We need to take bold actions," he insists. "We have a huge amount of stuff to do." According to his view, we have two choices: we can return to a more primitive lifestyle and live in balance with the planet as hunter-gatherers or we can isolate ourselves in a very sophisticated civilization of high technology. "No doubt about which way I prefer," says one morning in his home, with a grin on his face as you type on your computer. "It is really a matter of how we organize society -. Where we get our food, our water How do we generate energy."

Regarding water, the answer is straightforward: desalination plants, which are able to turn sea water into drinking water. The food supply is more difficult: the heat and the drought will end most of the regions today's existing food crops. They will also push people to the north, where they will cluster in cities. In these areas, there is no room for landscaped gardens. As a result, Lovelock believes, we need to synthesize food - will have to create food in barrels with tissue cultures of meats and vegetables. This seems very exaggerated and deeply unpleasant, but, from a technological point of view, will not be difficult to accomplish.
The continuous supply of electricity will also be vital, he said. Five days after visiting the Hadley Centre, Lovelock wrote an article controversial opinionated, entitled "Nuclear power is the only green solution." Lovelock argued that "we must use the results of small renewable sensibly" but that "we have no time to experiment with these sources of visionary energy; civilization is in imminent danger and need to use nuclear power - the safest source of energy Facilities - now or suffer the pain soon to be inflicted on our planet so angry. "

Environmentalists howled in protest, but anyone who knew the history of Lovelock was not surprised by his defense to nuclear power. At 14, to read that the sun's energy comes from a nuclear reaction, he came to believe that nuclear energy is one of the fundamental forces in the universe. Why not take advantage of it? With regard to the dangers - radioactive waste, vulnerability to terrorism, disasters like Chernobyl - Lovelock says this is the least worst of evils: "Even if they're right about the dangers, and have, still is not nothing in comparison with climate change. "

As a last resort, to keep the planet at least marginally habitable, Lovelock believes that humans may be forced to manipulate the Earth's climate by building sunscreens in space or installing equipment to send huge amounts of CO2 out of the atmosphere. But he considers the large-scale geoengineering as an act of arrogance - "I imagine a goat would be easier to become a good gardener that humans pass to be guardians of the earth." Actually, it was Lovelock who inspired his friend Richard Branson to offer a $ 25 million prize for the "Virgin Earth Challenge" (Virgin Earth Challenge), which is awarded to the first person who can create a commercially viable method of removing the gases responsible for the greenhouse effect of the atmosphere. Lovelock is competition judge, so it can not participate in it, but was intrigued by the challenge. His latest idea: suspend hundreds of thousands of vertical pipes 18 feet long in tropical oceans, put a valve at the base of each pipe and allow the water of the deep, rich in nutrients, is pumped to the surface by wave action . The nutrients from deep waters increase the proliferation of algae, which consume carbon dioxide and help cool the planet. "It's a way to counterbalance the natural energy system using Earth itself," Lovelock speculates. "I think Gaia would approve."

Oslo is the perfect type of city to Lovelock. It is in northern latitudes, which will become hardened to the extent that the weather is warming up; has water on the mountains; thanks to its oil and gas reserves, is rich; and there have long creative thinking on energy, including, to the satisfaction of Lovelock, renewed discussion about nuclear energy. "The main issue to be discussed here is how to handle the hordes of people who come to the city," Lovelock warns. "In the coming decades, half of the southern European population will try to move here."

We drove to near the water, past the Akershus Castle, an imposing 13th century fortress that served as Nazi headquarters during the city's occupation in World War II. To Lovelock, the parallels between what the world faced then and what faces today are clear. "In some ways, it's like we were back in 1939," he says. "The threat is obvious, but were unable to realize what is at stake. We are still talking of reconciliation."

Then, as today, which most shocking Lovelock is the absence of political leadership. While respecting the Al Gore of initiatives to raise awareness, does not believe that no politician has come close to preparing us for what lies ahead. "In a very short time, we are living in a hopeless world, says Lovelock. He believes it is more than time to a version" global warming "of the famous speech that Winston Churchill did to prepare Britain for the Second World War :.. "I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat" "People are ready for it," Lovelock fire when passed under the shadow of the castle "People understand what is going much better than the most politicians. "

Whatever the future brings, it is likely that Lovelock is not around to see. "My goal is to live a rectangular life: long, strong and firm, with a rapid drop in the end", sentences. Lovelock shows no signs of nearing its tipping point. Despite having undergone 40 operations, including bypass surgery, continues to travel from one side to the other in the English countryside in his white Honda like a Formula One driver 1. He and Sandy recently spent a month on holiday in Australia, where visited the Great Barrier Reef. The scientist is about to start writing another book about Gaia. Richard Branson invited to the first space shuttle flight Virgin Galactic, will happen in the coming end of the year - "I want to offer him the Gaia view of space," says Branson. Lovelock is eager to do the tour, and plan to do a test in a centrifuge later this year to see if your body supports the gravitational forces of space flight. He avoids talking about his legacy, but plays with the children saying you want to see engraved on the headstone of his grave: "He never intended to be conciliatory."

In relation to the horrors that await us, Lovelock may well be wrong. Not for interpreting science erroneously (though it certainly can be), but for interpreting human beings erroneously. Few serious scientists doubt that we are about to live a climate catastrophe. But despite all the sensitivity to the subtle dynamics Lovelock and the feedback loops in the climate system, it shows curiously oblivious to the subtle dynamics and feedback loops in the human system. He believes that, despite our iPhones and our shuttle, we remain tribal animals, largely unable to act for the greater good or making long-term decisions that ensure our well-being. "Our moral progress," Lovelock says, "did not follow our technological progress."

But perhaps it is precisely the reason that the Apocalypse is coming. One of the questions that fascinates Lovelock is: Life has been evolving on Earth for more than 3 billion years - and why? "Like it or not, we are the brain and the nervous system of Gaia," he explains. "Now, we assume responsibility for the well-being of the planet. How do we handle this?"
As we made ​​our way through the tourists heading into the castle, it is easy to look at them and be sad. More difficult is to look at them and hope. But when I say this to Lovelock, he argues that the human race has gone through many bottlenecks before - and that perhaps we are better for it. Then he tells me the story of a plane crash, years ago, at Manchester Airport. "A fuel tank caught fire during takeoff," he recalls. "There was plenty of time for everyone to leave, but some passengers were simply paralyzed, sitting in armchairs, as were told to do, and the people who escaped had to climb over them to get out. It was perfectly obvious what needed to be done to leave, but they did not move. They died charred or asphyxiated by the smoke. And a lot of people, I'm sad to say, that is. And that's what will happen this time, only on a much larger scale. "

Lovelock looks at me with very steady blue eyes. "Some people will be seated in the chair doing nothing, panic paralyzed. Others will move. Go see what's about to happen, and will take action, and will survive. It is they who will bring civilization forward. "

(Translation Ana Ban)

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